Ataque de Lula à imprensa expõe desprezo pela democracia
O presidente que tenta intimidar a imprensa mostra desprezo pela democracia que diz defender
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante discurso em evento político, em meio a críticas à imprensa e à liberdade de expressão. Por Cláudio Ulhoa
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva perdeu a compostura, e, com ela, o respeito ao cargo. Ao atacar a imprensa e sugerir que críticos sejam “mandados para aquele lugar”, Lula não escorregou: ele revelou. Revelou intolerância ao contraditório, desprezo pela fiscalização e uma visão de poder incompatível com a República.
Quem governa não escolhe as perguntas. Quem ocupa o Planalto não seleciona quem pode falar. E quem se incomoda com manchetes negativas deveria, antes de tudo, se incomodar com os próprios erros. A imprensa não cria inflação, não administra mal, não promete e descumpre, não aparelha. A imprensa noticia.
A fala agressiva não é bravata de palanque: é sintoma. Sintoma de um governo que prefere atacar o mensageiro a corrigir a mensagem. Que tenta transformar crítica em ofensa e jornalismo em inimigo. Isso não é “paz e amor”; é autoritarismo embrulhado em retórica.
Lula gosta de posar como guardião da democracia, mas reage como quem não a suporta. Democracia exige nervos de aço. Exige ouvir o que desagrada. Exige prestar contas. Quem pede silêncio está pedindo submissão. Quem pede aplauso obrigatório está pedindo culto à personalidade.
É inaceitável que o presidente da República trate o jornalismo com desdém, como se a fiscalização fosse um complô. Não é. É dever constitucional. É interesse público. É a diferença entre Estado e feudo. Entre governo e corte.
O discurso agressivo alimenta a autocensura, legitima perseguições e normaliza investigações seletivas contra quem critica. Isso corrói o debate, empobrece a política e empurra o país para um terreno perigoso: o da intimidação institucional. Governos que não toleram perguntas sempre acabam temendo respostas.
Se o governo vai mal, a cobertura será dura. Se a gestão falha, a manchete será crítica. Não existe blindagem democrática. Existe responsabilidade. E ela começa no topo.
Portanto, presidente, menos chilique e mais trabalho. Menos ataque e mais entrega. Menos ameaça velada e mais transparência. Se a crítica incomoda, a solução não é calar, é governar melhor.
A imprensa não vai pedir licença para cumprir seu papel. E a sociedade não deve aceitar governantes que confundem poder com impunidade verbal.





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