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Brasília,20/02/2026

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    UAI! E o brasileiro? Só ficou com o “sabor, sabor picanha”

    Entre promessas, marketing político e realidade dura, a cena do miojo a 1 centavo escancara um país cansado de sobreviver, e não de viver


    UAI! E o brasileiro? Só ficou com o “sabor, sabor picanha” Entre a promessa da picanha e a realidade do miojo a um centavo, brasileiros disputam comida em meio ao desespero e à falta de dignidade social.

    Por Cláudio Ulhoa

    UAI!”. A palavra sai quase sozinha quando a gente assiste ao vídeo da multidão brigando por um pacote de miojo a 1 centavo no interior do Rio Grande do Norte. Não é só uma promoção. Não é só uma confusão. Não é só “mais um viral”. É um retrato cru, desconfortável e revoltante de um Brasil que, mais uma vez, foi empurrado para disputar migalhas enquanto escuta, do outro lado, discursos sobre prosperidade, fartura e… picanha.

    A tal “picanha” virou símbolo. Símbolo de promessa, de esperança, de discurso bonito em palanque. Virou quase um slogan informal: o Brasil do churrasco, da mesa cheia, da vida melhor. Mas, na prática, para milhões de brasileiros, o que sobrou foi o “sabor artificial”. Sabor de miojo. Sabor de sobrevivência. Sabor de improviso.

    A cena é dura: gente se empurrando, caindo, se machucando, disputando pacotes como se fossem ouro. Enquanto isso, uma voz no fundo pede: “Cuidado, pessoal”. Como se fosse possível manter dignidade num cenário desses. Como se fosse possível preservar calma quando a fome, o aperto e o medo do amanhã batem à porta todos os dias.

    E não, isso não é “jeitinho brasileiro”. Não é “engraçado”. Não é “folclore”. É desespero.

    O mais perverso é que tudo isso ainda é tratado como marketing. A promoção vira “case de sucesso”. A confusão vira “engajamento”. O tumulto vira “alcance”. Ganha like, ganha compartilhamento, ganha audiência. Mas quem ganha dignidade? Quem ganha futuro? Quem ganha segurança alimentar? Ninguém.

    É uma lógica cruel: transformar pobreza em espetáculo.

    Enquanto autoridades falam em crescimento, retomada, números positivos e indicadores, uma parte enorme da população segue contando moeda para comer. E quando surge uma chance mínima de economizar, o corpo reage antes da razão. Corre. Empurra. Se expõe. Arrisca.

    Porque quem vive no limite não pode perder oportunidade.

    E aí vem o “UAI!” de indignação: como chegamos a esse ponto?

    Como normalizamos ver adultos brigando por comida barata? Como aceitamos que isso vire rotina? Como deixamos que a narrativa oficial seja tão distante da realidade das ruas?

    Não é só sobre um pacote de miojo. É sobre um sistema que acostumou o brasileiro a agradecer por pouco. A comemorar desconto como vitória. A tratar sobrevivência como privilégio.

    A picanha virou meme. Virou promessa. Virou marketing. Mas, para muita gente, virou só piada amarga.

    Porque, no prato, não chegou.

    O que chegou foi inflação, juros altos, renda apertada, emprego instável, informalidade, dívidas, aluguel caro, gás caro, mercado caro. Chegou o “dá pra hoje, amanhã a gente vê”. Chegou o “vamos improvisar”.

    E o pior: chegou também a resignação.

    A ideia de que “é assim mesmo”. De que “sempre foi assim”. De que “não vai mudar”.

    Mas não pode ser assim.

    Um país que naturaliza esse tipo de cena está doente socialmente. Está anestesiado. Está perdendo a capacidade de se indignar.

    E quando a indignação morre, morre junto a pressão por mudança.

    O brasileiro não quer luxo. Não quer ostentação. Não quer privilégio. Quer o básico: comida na mesa, tranquilidade, segurança, dignidade. Quer viver, não apenas resistir.

    Enquanto isso não acontecer, todo discurso sobre prosperidade soa vazio. Toda promessa soa falsa. Todo “vai melhorar” soa como deboche.

    Porque, na prática, para milhões, o que ficou foi só isso:

    O sabor do miojo.
    O sabor da luta.
    O sabor da sobrevivência.

    E a picanha? Ficou no discurso.

    UAI.




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