Lula transforma tarifaço dos EUA em palanque e tenta empurrar a conta para Bolsonaro
Em vez de apresentar uma saída diplomática robusta para proteger exportadores brasileiros, governo aposta no discurso político e tenta converter uma crise comercial em narrativa eleitoral
O tarifaço dos EUA virou mais uma guerra política no Brasil. Enquanto exportadores temem prejuízos e o setor produtivo cobra solução, Lula tenta transformar a crise em narrativa contra Bolsonaro. No fim, quem paga a conta é o país. A possível tarifa de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deixou de ser apenas um problema de comércio exterior. Virou munição política. E, nesse terreno, o governo Lula parece mais interessado em encontrar um culpado conveniente do que em construir uma solução objetiva para proteger empresas, empregos e exportações brasileiras.
O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, abriu procedimento dentro da chamada Seção 301, instrumento usado por Washington para investigar práticas consideradas injustas ou prejudiciais ao comércio norte-americano. A proposta inclui tarifas sobre produtos brasileiros, com audiência pública marcada para 6 de julho de 2026.
É grave. Mas também é revelador.
Diante da ameaça, o senador Flávio Bolsonaro pediu o adiamento por 180 dias da aplicação das tarifas. O argumento político é claro: impedir que o tarifaço seja usado como arma eleitoral durante a campanha. A preocupação econômica também existe, já que uma sobretaxa desse tamanho pode atingir setores produtivos, reduzir competitividade e pressionar cadeias de exportação.
A reação de Lula, porém, foi previsível. Em vez de tratar o episódio como uma crise comercial que exige diplomacia, estratégia e articulação internacional, o presidente preferiu vestir a fantasia do nacionalismo seletivo e acusar adversários de traição. O roteiro é conhecido: quando a economia aperta, quando o mercado reage, quando a diplomacia falha, cria-se um inimigo político para ocupar o centro da narrativa.
O governo brasileiro tem um argumento relevante: os Estados Unidos mantêm superávit comercial nas relações com o Brasil, o que enfraquece a lógica de uma punição tarifária ampla. Dados divulgados pelo próprio governo apontam que, em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no Brasil sem imposto de importação e que a alíquota média efetiva cobrada de produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%.
Esse é um ponto forte. Mas argumento forte não basta quando a estratégia política é fraca.
A pergunta que precisa ser feita é simples: se o Brasil tem razão no mérito comercial, por que o governo prefere transformar a crise em guerra eleitoral doméstica? Por que a comunicação oficial soa mais preocupada em carimbar adversários como “sabotadores” do que em apresentar ao país uma frente técnica, diplomática e econômica de alto nível?
O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o caminho será o diálogo para evitar a taxação, enquanto integrantes do governo criticaram o que chamaram de ação eleitoreira da oposição. O problema é que diálogo não pode ser apenas palavra bonita em coletiva. Precisa vir acompanhado de articulação real, presença institucional forte em Washington, defesa técnica consistente e capacidade de separar interesse nacional de conveniência partidária.
Há, sim, um risco político evidente. Se as tarifas forem aplicadas, Lula tentará vender ao eleitor a tese de que o Brasil está sendo punido por culpa da família Bolsonaro. Se forem adiadas, dirá que venceu pela diplomacia. Se forem reduzidas, também tentará faturar. Em qualquer cenário, o Palácio do Planalto buscará transformar comércio exterior em propaganda.
Mas o Brasil não pode ser tratado como peça de campanha.
Exportadores, produtores, trabalhadores e consumidores não querem saber de encenação patriótica. Querem previsibilidade. Querem mercado aberto. Querem governo competente. Querem menos palanque e mais resultado.
A oposição também precisa medir seus passos. Buscar interlocução com autoridades estrangeiras pode ser legítimo quando o objetivo é defender o interesse nacional, mas deve ser feito com transparência, responsabilidade e sem alimentar a impressão de que disputas internas brasileiras estão sendo terceirizadas para Washington.
Ainda assim, o ponto central permanece: Lula governa o país. É dele a responsabilidade de liderar a resposta institucional. Não adianta colocar a culpa em Bolsonaro, em Flávio, em Eduardo, em Trump, no mercado, na imprensa ou no “inimigo externo” da vez. Presidente que quer crédito por tudo também precisa assumir responsabilidade quando o país entra em rota de colisão comercial.
O tarifaço, caso avance, será ruim para o Brasil. Mas politicamente pode servir ao governo Lula como cortina de fumaça. E talvez esse seja o aspecto mais preocupante: quando uma crise econômica vira oportunidade eleitoral, quem paga a conta não é o discurso. É o setor produtivo. É o trabalhador. É o país.
No fim, a questão não é apenas se Lula sabotou ou não o Brasil. A questão é se o governo está disposto a resolver o problema ou se prefere explorar o problema até o último voto.




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