Opinião | Reativar acordo com entidade investigada é um desrespeito aos aposentados brasileiros
Decisão de reativar parceria com entidade investigada por descontos em benefícios previdenciários levanta questionamentos sobre transparência, responsabilidade e respeito aos aposentados.
Em meio às investigações sobre descontos associativos em aposentadorias, a reativação do acordo entre o INSS e uma entidade investigada gera revolta e reforça a cobrança por transparência e respeito aos beneficiários. Por Cláudio Ulhoa
Enquanto milhares de aposentados e pensionistas ainda tentam entender como tiveram descontos realizados em seus benefícios sem autorização, o governo federal decidiu dar um passo que causa perplexidade e indignação: reativar um acordo de cooperação com uma entidade que continua sendo alvo de investigações sobre exatamente esse escândalo.
A questão aqui não é condenar previamente ninguém. Toda instituição tem direito à ampla defesa e ao contraditório. O problema é outro. Trata-se de uma questão de bom senso, respeito ao dinheiro público e, principalmente, respeito aos idosos brasileiros.
Como explicar para um aposentado que teve parte de sua renda comprometida por descontos questionados que a entidade investigada voltará a manter parceria oficial com o INSS antes mesmo da conclusão das apurações? Que mensagem isso transmite à sociedade?
O escândalo dos descontos associativos não atingiu milionários nem grandes empresários. As denúncias apontam que as principais vítimas foram justamente pessoas mais vulneráveis: idosos, trabalhadores rurais, pensionistas e brasileiros que dependem de cada centavo para comprar medicamentos, alimentos e pagar contas básicas.
Por isso, a decisão gera uma sensação inevitável de impunidade.
Em qualquer ambiente minimamente comprometido com a transparência, o natural seria aguardar o fim das investigações. A cautela deveria ser a regra. Afinal, se não há irregularidade, a conclusão dos órgãos de controle servirá para comprovar isso. Mas enquanto as investigações seguem em andamento, a prudência recomenda distância institucional, não reaproximação.
A reação do Congresso Nacional mostra que a indignação não está restrita à população. Parlamentares de oposição já anunciaram medidas para tentar barrar a decisão, justamente porque entendem que o momento exige responsabilidade e sensibilidade política.
O cidadão comum tem o direito de se perguntar: por que tanta pressa em restabelecer um acordo cercado de questionamentos? Qual a urgência? Qual o benefício imediato que justifica assumir um desgaste político tão grande diante de um dos maiores escândalos já registrados envolvendo aposentados do país?
O Brasil precisa de respostas. E, mais do que respostas, precisa de exemplos.
A confiança da população nas instituições públicas não se recupera com discursos. Recupera-se com atitudes. E, neste momento, a atitude que a sociedade esperava era de rigor, cautela e compromisso absoluto com a apuração dos fatos.
Reativar uma parceria com uma entidade investigada, antes que todas as dúvidas sejam esclarecidas, não fortalece a credibilidade do sistema. Pelo contrário. Alimenta a desconfiança de quem já se sente abandonado.
E quando os prejudicados são justamente aqueles que passaram uma vida inteira trabalhando e contribuindo para a Previdência, a indignação não é apenas compreensível. Ela é legítima.




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